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domingo, 5 de setembro de 2010

Do nada.


Tava fazendo xixi e pensei numa coisa. Há muito tempo eu não escrevo uma história de mentira. Uma história inventada da minha própria cabeça, cheia de fantasias, príncipes e borboletas como eu gosto. Ultimamente tenho escrito sobre realidade. A minha realidade, minha rotina, minha vidinha besta de lá pra cá e daqui pra lá. De vez em quando um pouco de respiro, como quando eu reparo nos sapatos de lacinhos da moça que tá sentada do meu lado dentro do ônibus, ou no cor de rosa do esmalte dela, essas coisas que podem ser vistas como um quê de poesia, mas eu vejo mesmo como detalhes óbvios da vida de uma mulherzinha.

Então eu me assustei. Será que eu tô me transformando numa pessoa normal? Normal no sentido de pessoa fria dessas que andam dentro dos ônibus comigo. Dessas que não mexem o pé no ritmo da música que toca no seu fone. Dessas que não imaginam nunca a possibilidade daquela música linda lá fora ser uma serenata pra elas. Dessas que comem chocolate como se fosse arroz e feijão. Dessas que não fazem da escova de cabelo um microfone. Dessas que não sonham com os príncipes encantados afora. Dessas que não cantam no chuveiro. Dessas que não fazem caretas na frente do espelho. Dessas normais.

Opa. Quase que a realidade me pegou e me prendeu nesses últimos tempos, acabo de constatar. Que perigo!

"Era uma vez uma larva muito marrom e muito feia que rastejava pela floresta. Olhava pra cima e via o mundo tão grande, cheio de flores de todas as cores, rosa, azul, roxo, amarelo, laranja. Olhava pra baixo e via a terra tão marrom quanto ela. O maior sonho da larva era ser colorida como o mundo. E chorava, chorava a rastejar.

Depois de um certo tempo, a larva encontrou uma laranjeira pelo caminho. Subiu pelo caule até chegar numa laranja que era tão grande e tão laranja que até um lápis de cor laranja sentiria inveja.
- Olá, Laranja!

-Olá, Larvinha - respondeu a laranja. - Por que toda essa tristeza? Estou vendo lágrimas nos seus olhos...

- Puxa, Laranja, sabe o que é? Estou cansada de ser feia desse jeito. Não tenho nada de interessante, só esse marrom feio. Ninguém olha pra mim, ninguém liga pra mim, posso até ser pisada que não faz a menor diferença...
- Não fique assim, Larvinha. Cada um é de um jeito e nós precisamos nos gostar assim como somos.

- Tá, eu vou tentar ficar melhor.


Se despediu e saiu rastejando até chegar numa folha. Comeu um pouco e desejou que aquele lindo tom de verde que ela comia se espalhasse pelo seu corpo e a fizesse ser mais colorida. Mas nada aconteceu.


A larva continuou rastejando pela floresta até encontrar uma joaninh
a e uma abelha. Sentiu muita inveja. A joaninha era vermelha com bolinhas pretas, brilhava na luz do sol como se houvesse verniz em suas asas. A abelha era listadinha de amarelo e preto, e as duas podiam voar. A larva então abaixou a cabeça numa tristeza profunda e seguiu o seu caminho, se sentindo a pior das criaturas da floresta.

Anoiteceu e os vagalumes apareceram. Disse a larva:

- Puxa, como são lindos os vagalumes! Dançam a noite inteira iluminando o céu como se fossem estrelinhas...


E observando a coreografia dos vagalumes, a larva adormeceu. Um sono profuuuundo, longo como o inverno. Sonhou que seu corpo se transformava...

Muito tempo depois, a larva despertou, mas estava em outro lugar. Era um lugar quente e apertado, não tinha como se mexer. Não dava pra ver a luz do sol, não d
ava pra ver o céu, e nem as cores do mundo.
- O que está acontecendo? Eu quero sair daqui!


Encontrou um buraquinho e lá foi ela. Cavando daqui e dali, fazendo força, ai, ai, que difícil... A larva então conseguiu sair e... tamanha a sua surpresa em ver que não estava no chão, nem em um galho qualquer... estava no ar! A larva estava voando, leve como uma... BORBOLETA! Olhou para suas asas e viu que nelas havia todas as cores que ela gostava! Uma mistura perfeita de azul do céu, com laranja da fruta, com verde da folha, com vermelho da joaninha, amarelo da abelha, roxo e rosa das flores... Ela era mais colorida que o arco íris! Que felicidade!

A borboleta então saiu voando pela floresta muito feliz e satisfeita."


Moral da história: a transformação está em nós mesmos.

Ass:
Bella Marcatti.

9 comentários:

Livia Horta disse...

Olá! Gostei da sua narrativa e a busca incessante da borboletinha por algo melhor (que é o que somos, buscamos sempre algo melhor para nós). Você bem que poderia dar continuidade a esta estória... a borboleta, talvez, possa ter aquele príncipe, lembra? Quem sabe um sapo? Inusitado não é mesmo? Quero aproveitar e deixar uma frase para reflexão: "As pessoas buscam poder, sucesso e riqueza para elas mesmas e os admiram nos outros, subestimando tudo aquilo que verdadeiramente tem valor na vida." Freud - Aguardo as próximas cenas das fantásticas aventuras da Brabuleta! Abraços

Bella Marcatti disse...

Oi Livia! Obrigada por visitar o meu blog. Fico feliz que tenha gostado do meu jeito de escrever e tbm da estória. Não tinha pensado em uma continuação, mas pode ser uma ótima ideia... Fique no aguardo dos próximos capítulos!

Obrigada tb pela frase para reflexão, que complementa muito o meu texto.

Volte sempre!

Abraços!

Thiago Chang disse...

Fantástica como sempre Bella!
Me pondo sorrisos no rosto!
=)

João Lenjob disse...

Bella!! Fantástico!! Vindo de uma atriz isso é natural pois entes da arte são geralmente criativos e não só tradutores, né? Prossiga fazendo isso, sendo uma deusa, dando vida a personagens. Beijão!!!

João Lenjob.

Ps.: aguardo sua visitanomeu blog.

Carol disse...

Aí! ADORO todas suas fotos... no mais, bom vir aqui e me perceber fora da normalidade, aff, quão bom! Mas mesmo essas pessoas "normais" tem seu lugar de ser livre. beijos Bella!

Bella Marcatti disse...

@Thiago Chang: É só uma forma de tentar retribuir o taaanto de sorrisos que vc põe no meu. =)

@João Lenjob: Obrigada pela visita e pelo comentário. E tbm pelos elogios! Dar vida a personagens é a minha vida, com certeza prosseguirei ness tarefa. Um abraço!

@Carol: Como o João disse aí em cima, nós, entes da arte, somos criativos, né!? E sim, tomara que todo mundo encontre na "normalidade" ou na "anormalidade" a sua liberdade. Pq todo mundo merece! Obrigada pela visita e pelo comentário! Beijo!!

JORGE SCARASATI disse...

O MAIS CATIVANTE NESSE POST (PELO MENOS PRA MIM), É SENTIR COMO VC CONSEGUE "VIAJAR" E MERGULHAR NA SUA IMAGINAÇÃO, SÃO AS IMAGENS QUE SINTO VC CRIANDO EM SUA MENTE PARA CONSEGUIR DESCREVER NESTAS PALAVRAS O QUE ESTÁ VISUALIZANDO EM SUA MENTE, É FANTÁSTICO E ESTIMULANTE PERCEBER QUE AINDA EXISTEM PESSOAS COMO VC, QUE APESAR DO MUNDO AGIR COMO UMA LAGARTA, (SEMPRE QUERENDO MAIS), VC AINDA CONSEGUE SE MANTER COMO UMA BORBOLETA, MESMO QUE NÃO TENHA A CONSCIÊNCIA DISSO... VC É MESMO LINDA, PARABÉNS!

Bella Marcatti disse...

Que bom que vc está me trazendo um pouquinho dessa consciência... O meu sonho é ser uma eterna brabuleta!!! Na vida!!! =)

JORGE SCARASATI disse...

EU ACREDITO QUE EM VERDADE SOMOS TODAS AS POSSIBILIDADES AO MESMO TEMPO, SÓ QUE DEPENDE DA INTERAÇÃO DE TODOS OS FATORES COM QUE INTERAGIMOS A TODO INSTANTE, POIS ELES INFLUENCIAM NOSSO FOCO E NOSSO PONTO DE VISTA SOBRE CADA SITUAÇÃO...

PODE TER A CERTEZA DE QUE VC JÁ É ESSA BORBOLETA LINDA QUE DIZ SONHAR EM SER, É QUE A MAIORIA DAS PESSOAS SÓ CONSEGUE ENXERGAR O QUE JÁ ESTÁ FORA DO CASULO, E OS OLHOS ENGANAM A MENTE...