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quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Perdida

Eu nunca me senti desse jeito. Nada está bom, e nem sei o que fazer para tornar as coisas um pouco melhores. Será que se eu fugir eu vou conseguir me livrar desses pensamentos estranhos? Ou será que eles me acompanharão pra onde quer que eu vá? Será que se eu me fechar eu vou conseguir olhar pra dentro de mim e descobrir o que está acontecendo? Ou será que se eu me abrir para o mundo eu vou acabar encontrando as respostas com o tempo?

Estou em crise... Com tudo. Com a família, com os amigos, com o teatro, com o namorado, com a cidade, com... COMIGO. Eu não estou bem mesmo, e tudo em volta se torna cinza do mesmo jeito. Não sei o que fazer, não sei o que fazer, não sei o que fazer, não sei o que fazer, não sei o que, não sei o que, não sei o que, não sei o, não sei o, não sei o, não sei, não sei, não sei, não, não, não...

Empurrando os dias, as horas, os minutos e os segundos. Vivendo pelo simples fato de viver, sem nenhum objetivo, sem nenhuma esperança. Vivendo um dia de cada vez, sofrendo a cada dia, e sem saber o que fazer. Parada e perdida no meio de tudo.


E sozinha. Disso eu tenho a mais plena certeza.

A menina que roubava livros - um trechinho lindo


"Foi o cabelo do menino que ela viu primeiro.


Rudy?

Em seguida, fez mais do que apenas mover os lábios para enunciar a palavra.
- Rudy?
Ele estava deitado com seus cabelos amarelos e olhos fechados, e a menina que roubava livros correu em sua direção e desabou. Deixou cair o livro preto.
- Rudy, acorde - soluçou. Agarrou-o pela camisa e lhe deu a mais leve sacudidela incrédula. - Acorde, Rudy - e já então, enquanto o céu continuava a esquentar e a despejar uma chuva de cinzas, Liesel agarrava o peito da camisa de Rudy Steiner.
- Rudy, por favor - e as lágrimas se engalfinhavam com seu rosto. - Rudy, por favor, acorde, que diabo, acorde, eu amo você. Ande, Rudy, vamos Jesse Owens, não sabe que eu amo você? Acorde, acorde, acorde...

Mas nada se importou.

Os destroços apenas subiram, mais altos. Montanhas de concreto com tampas de vermelho. E uma linda menina, pisoteada pelas lágrimas, sacudindo os mortos.
- Vamos, Jesse Owens...
Mas o menino não acordou.

Incrédula, Liesel afundou a cabeça no peito de Rudy. Segurou seu corpo amolecido, tentando impedir que pendesse para trás, até que precisou devolvê-lo ao chão massacrado. E o fez com delicadeza.
Devagar. Devagar.

- Meu Deus, Rudy...
Inclinou-se, olhou para seu rosto sem vida, e então beijou a boca de seu melhor amigo, Rudy Steiner, com suavidade e verdade. Ele tinha um gosto poeirento e adocicado. Um gosto de arrependimento à sombra do arvoredo e na penumbra da coleção de ternos do anarquista. Liesel beijou-o demoradamente, suavemente, e, quando se afastou, tocou-lhe a boca com os dedos. Suas mãos estavam trêmulas, seus lábios eram carnudos, e ela se inclinou mais uma vez, agora perdendo o controle e fazendo um erro de cálculo. Os dentes dos dois se chocaram no mundo demolido da Rua Himmel.

Liesel não disse adeus. Foi incapaz de fazê-lo e, após mais alguns minutos ao lado do amigo, conseguiu levantar-se do chão."

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Milágrimas


Em caso de dor, ponha gelo

Mude o corte do cabelo

Mude como modelo

Vá ao cinema, dê um sorriso

Ainda que amarelo

Esqueça seu cotovelo

Se amargo for já ter sido

Troque já este vestido

Troque o padrão do tecido

Saia do sério, deixe os critérios

Siga todos os sentidos

Faça fazer sentido

A cada milágrimas sai um milagre

Em caso de tristeza vire a mesa

Coma só a sobremesa

Coma somente a cereja

Jogue para cima, faça cena

Cante as rimas de um poema

Sofra apenas, viva apenas

Sendo só fissura, ou loucura

Quem sabe casando cura

Ninguém sabe o que procura

Faça uma novena, reze um terço

Caia fora do contexto, invente seu endereço

A cada milágrimas sai um milagre

Mas se apesar de banal

Chorar for inevitável

Sinta o gosto do sal

Sinta o gosto do sal

Gota a gota, uma a uma

Duas, três, dez, cem mil lágrimas, sinta o milagre


A cada milágrimas, sai um milagre.