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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O chato



Não existe definição exata, mas todo mundo sabe quem O CHATO é. Aquele que faz as piadinhas mais sem graça, que faz comentários incovenientes em momentos inoportunos, que gosta de aparecer, que bebe demais, que se acha o legalzão da turma. Existem outros tipos de chatos também, mas hoje eu gostaria de focar nesse tipo. Porque hoje, meus caros amigos leitores, hoje eu tive real vontade de assassinar um chato.


Hoje não foi um dia muito inspirador, sabe. Acordei 15h e quando isso acontece, é como se um trator tivesse passado por cima de mim e não satisfeito com meu estado, o motorista resolve dar ré. Dor de cabeça, as pálpebras pesadas, o corpo se arrastando pela casa. Um zumbi ou algo bem parecido, era eu. Mas hoje foi dia de trabalhar. Terça feira é dia de ser mestre de cerimônias no Bhar Savassi, como Mirabella. Mirabella, minha palhaça. Eu.


Rezo. Rezo para que a plateia seja boa, que me ajude a tirar energia do rim pra realizar um bom espetáculo.


E hoje, logo hoje, Brasil, logo hoje eis que me senta na primeira cadeira, embaixo do palco, ele. O CHATO. Ele poderia ser chato na mesa dele, com os amigos dele, na casa dele, no trabalho dele, com as nega dele, ele poderia ser chato no banheiro, ele poderia ser chato onde ele quisesse! Mas no meu show, aaaaaaaaahhh, no meu show ele não poderia jamais ter sido chato. Que tipo de pessoa consegue ser tão inconveniente, mas tãão inconveniente, a ponto de não perceber que ali na frente dela há uma apresentação acontecendo, há uma personagem fazendo graça para mais de 100 pessoas, e que essa personagem necessita silêncio e concentração para realizar de maneira eficaz o seu trabalho? Que tipo de pessoa consegue ser tão egoísta e tão egocêntrica, a ponto de achar que o show é exclusivamente para ela e que ela e somente ela pode interromper a qualquer momento em que achar interessante, soltando seus comentários extremamente imbecis e sem o mínimo de noção? Que tipo de pessoa vai a um espetáculo com o intuito de aparecer mais que o ator?


(MEU FILHO... MORRE, PELO AMOR DE DEUS!!!)


Eu fiz de tudo o que podia. Respondi, brinquei, ignorei, fingi que não era comigo, dei atenção, dei a palavra, até que no final, apelei: "Ô, querido, eu posso falar?"


Incrível como uma maçã podre consegue estragar todas as outras da mesma caixa. Mesmo que o restante do público tenha gostado e se divertido com o show, pra mim a noite foi uma bosta simplesmente por causa desse cara que me tirou do sério!


Fim da noite, eu já vestida de mim mesma, conversando com o pessoal. Me vem O CHATO pedindo pra tirar foto. Mas de nariz. Mas eu já tirei o nariz. Ah, por favor, coloca o nariz só pra sair na foto, vai. Inspira 1, 2, 3, segura, 3, 2, e solta em pssssssssssssssss... (Tá, seufilhodaputa, eu coloco a porra do nariz e você faz o favor de enfiar essa foto no centro do seu orifício anal, pode ser?) Tiro a foto. Sorrindo na interpretação deles, rosnando na minha. Ok, gente, obrigada pela presença, até a próxima... Estendo a mão. O CHATO segura. E segura. E não larga. Deus sabe porque eu não ando com um revólver na mochila. Se eu andasse, teria assassinado esse corno hoje com toda a minha certeza.


Mas cês pensam que acabou? Rá. Segura essa:


Depois de me livrar, volto para o meu pessoal. Cinco minutinhos e tuc tuc no meu ombro. Me viro. Dou um doce pra quem adivinhar quem era. O CHATOOOOO!!!! Oba, que alegria. Eu me senti como o Quico do Chaves virando e falando "Quiéééééééé????"

"Você pode me emprestar o seu nariz de palhaço pra eu tirar uma foto?"





(ELE SE SUPERA, BRASIL. ELE PODE SER PIOR DO QUE JÁ FOI A NOITE ABSOLUTAMENTE TODA, ELE CONSEGUE. PALMAS, PALMAS PRA ELE!!!)


"Coméquié? O meu nariz? Meu nariz de palhaço? Esse sagradinho aqui que eu tenho há 5 anos e NINGUÉM NUNCA NEM PÔS A MÃO!? Você quer enfiar seu nariz todo sujo de meleca no MEU NARIZ de palhaço pra tirar uma porra de uma foto?? Isso aqui é sagraaaaaaaaaado meu filho, isso aqui é minha vida, isso aqui é minha religião, cê tá entendendo!? Nem que você fosse legal eu emprestaria, ainda mais você, que arruinou a minha vida, seu desgraçado! Vai caçar nariz de palhaço na puta que te pariu!"


Claro que eu não falei assim. Mas esse post está sendo feito justamente pra exteriorizar todo esse sentimento de ódio e rancor que estava guardado aqui no meu coraçãozinho. Na verdade foi assim:

"Desculpa, mas não dá mesmo. É material de trabalho, eu já guardei, não dá mesmo, desculpa tá bom? Não posso, tem um valor sentimental muito grande, eu tenho esse nariz há 5 anos, nunca emprestei pra ninguém. Não, desculpa, não posso. Não, não... Desculpa tá, não posso mesmo..." E nessa daí vocês calculam o quanto O CHATO insistiu. E como se não bastasse, fez biquinho, literalmente, como que fazendo gracinha (ai, por que eu não tinha uma tesoura na mão pra cortar o beiço dele fora, Jesus) e saiu achando ruim. Guardaram isso? SAIU ACHANDO RUIM!

Aí pra sair falando que a atriz é chata, estrelinha, metida, nojentinha, não custa... né? Cês só sabem das pingas que eu tomo, mas não sabem dos tombos que eu levo...




Te contar, viu...


Ass: Bella Marcatti (de TPM)


terça-feira, 16 de agosto de 2011

Post encomendado

"Tempo: Um feriado qualquer de um ano qualquer.
Espaço: Uma noite qualquer numa cidade qualquer. De praia.
Situação: Um grupo de pessoas qualquer espera do lado de fora do teatro um grupo de artistas (que não pode ser qualquer) que acaba de se apresentar.

APRESENTAR - No dicionário, alguma das definições
1) Expor
2) Mostrar, oferecer à vista
3) Exibir
4) Pôr na presença de

Essa é uma história de muitas apresentações.

Ele havia se apresentado para ela, mesmo que sem saber. De cima do palco, as luzes ofuscam um pouco a visão, e a plateia nada mais é do que um mar à noite. Breu. De onde ela estava sentada, na lateral, ela via somente o perfil dele e ouvia as bobagens que ele falava. Se divertia.

Fim do espetáculo, descendo os degraus da porta do teatro, ele foi apresentado ao sorriso dela. Um infinito de milésimo de segundo, tão rápido que ninguém percebeu sua pausa no meio de tanto movimento, mas para ele, tão lento, que sua mente teve tempo o suficiente para fotografá-lo na memória.

Eles não foram devidamente apresentados, com aperto de mãos e beijinhos nas laterais do rosto(na cidade dele, normalmente dois, na dela, apenas um), o que foi ótimo por não causar desconforto a nenhuma das partes, já que ele poderia parecer atirado demais e ela tímida demais. E nenhuma das duas coisas era verdade.

Tempo: Algumas horas depois.
Espaço: Uma pizzaria qualquer.
Situação: Conversa qualquer.

"Senta! Eu não gosto de conversar sentada com uma pessoa que está em pé! Me dá nervoso!"
Ele se senta em frente a ela por dois minutos. Faz o máximo para ser agradável e gentil, e ela percebe isso.
Ela não é apresentada ao prazer de estar em sua companhia, pois uma suposta namorada bate o pé bem irritada e diz que vai embora. E ele vai junto.

Ela, incomodada.

(...)

Tempo: Na semana seguinte.
Espaço: Ela na cidade dela. Sem praia. Ele na dele. Com praia.
Situação: Comunicação via internet.

Foram apresentados. Ainda bem que pela internet não existem essas coisas de dois ou um beijinho. Ele não parece atirado demais e ela não parece tímida demais, e eles se dão bem. Conversam sobre trabalho, e a propósito, a moça daquele dia não era namorada dele.

(...)

Tempo: Nas semanas seguintes.
Espaço: Ela na cidade dela. Sem praia. Ele na dele. Com praia.
Situação: Muitas horas de comunicação via internet, sms e telefone.

Eles se parecem em quase tudo. Se divertem juntos, dividem e compartilham o cotidiano, o que acontece de bom e de mau.
Todos os dias.
Eles já gostam assim sem nem perceber. Naturalmente, como se tivesse que ser assim e pronto. Não foi combinado, não é regrado, não tem jogo e nem explicação. É.

(...)

Tempo: Breve. O que não chega nunca.
Espaço: Na cidade dela. Sem praia.
Situação: Um novo encontro.

Finalmente, eles serão apresentados. Na cidade dela, um beijinho. Pelas contas dele, :***************************************************************************..."


Atendendo a pedidos, essa é só mais uma história de "quando a vida tá meio parada e aí ela nos apresenta pessoas legais. (digdin)"

Ass: Bella Marcatti

sábado, 4 de junho de 2011

Impressões de uma terapia.

Trilha sonora para mim mesma: "Alone Apart" - Marketa Irglova e Glen Hansard

Um osso de galinha entalado na minha garganta. Bebo água, boto água pra fora através dos olhos, me irrito, grito, sinto o peito e o mundo sufocados porque o ar não pode passar tão livremente. O ar de dentro não sai e o de fora não entra. Me sinto um balão de festa de criança. Sempre gostei mais dos balões de gás hélio, mas esse eu jamais poderia ser pois se você solta esse, ele voa. E neste momento, voar é a última coisa que eu poderia fazer. Infelizmente. Fico tão nervosa que me esqueço de que garganta serve pra falar, e se tá entalado aí é porque tem palavra querendo sair e não está conseguindo. Então procuro ouvidos. Ombros. Braços. Telas. Caracteres. Fotinhas tão pequenas que nem é possível ver os olhos de quem é. Procuro lugares que possam me escutar de alguma maneira. Falar pra mim mesma não parece ser bom. A gente sempre procura a gente no outro, mesmo sabendo que as pessoas são diferentes. Isso porque qualquer identificação já é um alívio, um respiro, uma mínima certeza de que não se está sozinho no mundo com aquele problemão. Mesmo que não se resolva, alguém também tem, e a dor parece um pouco menor.

Mas é mentira. As pessoas são egoístas e cada um tem a sua dor. Pode ser a mesma, mas não é igual. E falar pra quem só escuta pela metade não adianta muito. A metade que saiu não foi bem recebida do lado de fora, acabou voltando como criança quando sente medo de madrugada e vai pra cama dos pais... e fez confusão com a parte que ficou... O osso de galinha continua aqui, e eu só não arrisco dizer que ele aumentou porque senão eu teria morrido sufocada e não estaria aqui agora. E vocês não acreditariam.

Mas sabe. existem pessoas que estudam para ouvir 100%. São os ouvidos mais atentos do mundo, e estão diretamentes ligados a um cérebro magnífico que ao receber informações da minha vida é capaz de simplificar toda a minha confusão (porque não é o meu próprio cérebro, obviamente), e mandar pela boca palavras de (des)conforto que me fazem sentir melhor. Por apenas alguns muitos dinheiros. E eu resolvo falar as palavras engasgadas para os ouvidos 100%. Começo falando baixo, um pouco tímida, as palavras se espremendo entre o ar e o osso de galinha, saindo meio tortas e cansadas. Quase não acreditando que estão sendo libertas, meio desconfiadas, ressabiadas, fazendo rodeios. Não sabem ao certo pra quem estão indo, se misturam nas mãos agitadas trocando o anel de dedo em dedo, arrumando a franja já arrumada, colocando o cabelo atrás da orelha, mexendo na casquinha do brinco que tá inflamando a orelha, puxando fiozinho da blusa, se misturam nas pernas fortemente cruzadas. São soltas e jogadas para alguém que realmente as escuta, e aos poucos as outras vão sentindo vontade de sair também, pois também querem ser ouvidas. E as outras, as outras, as outras... Nessa hora as palavras da garganta já liberaram o espaço e o ar passa livremente, de dentro pro mundo, do mundo pra dentro. Existe ar do lado de fora, e é tão puro, e é tão bom. Balão de gás hélio. E sobe, sobe, sobe... E quanto mais alto, mais leve, pois as palavras estão saindo e tirando todo o peso. Palavras que estavam guardadas em tantos lugares, onde nem eu mesma sabia que existiam. E falo falo falo falo falo...


Mas também escuto. Verdadeiras porradas. Coisas que me fazem parar por três segundos num sorriso amarelo, numa reflexão tão profunda que sou capaz de viajar no meu universo inteiro e voltar com outra visão completamente diferenciada de tudo o que eu acabei de falar. E é simples assim como parece. Simples e dolorido assim. Dolorido porque descubro que se a minha vida fosse um filme num daqueles rolos de cinema antigo e você resolvesse projetar numa parede qualquer, você veria um filme em sua maioria preto e branco, totalmente mudo, e em algum determinado momento (ainda do início) a película embolaria e não daria pra ver o resto. A única pessoa interessada em ver o resto sou eu, portanto o trabalho de desembolar e consertar pra não embolar de novo é todo e puramente meu. Paciência, cuidado, organização do enredo, das datas, dos fatos, dos sentimentos de cada cena. E sem deixar romper para que o filme não fique pela metade pra sempre. O interesse é meu de ver esse filme terminando em um final feliz, colorido e com a trilha sonora que eu gosto.


Ass: Bella Marcatti